ODEIO MEU SUPEREGO
Era uma missão simples: comprar uma placa de isopor. O que complicou um pouco era o fato dela ter o tamanho de 200x100cm.
Fui até a loja de metrô e a idéia era voltar de táxi. Mas a porra da placa não coube nem numa Meriva nem numa Doblô, e quando descobri isso era tarde demais. Sozinho na rua com a placa na mão, só me restava ir de metrô. Poucos metros de caminhada e cheguei a uma estação. Comprei o bilhete, passei a catraca e desci as escadas. Já estava aguardando o metrô quando uma funcionária chega a mim e diz:
– Onde você vai com isso?
– Pro Tatuapé.
– Quem deixou você entrar com isso?
Ela tinha um tom de amargura na voz. Era daquelas pessoas que não tem a benção da educação.
– Eu entrei e ninguém falou nada.
– Você não pode levar isso no metrô, há um limite de tamanho, e isso extrapolou muito o limite!
– Mas moça, se já estou aqui em baixo, qual é o problema de eu ir?
– Isso é uma norma, não posso te deixar andar aqui com isso.
– Poxa, mas eu não tenho outra forma de levar isso...
– Não adianta, tem um limite de tamanho.
– Então qual é o limite então?
– Vamos lá fora que eu te mostro.
– Você não sabe qual é o limite?
– Vamos lá fora que eu te mostro – repetiu ela com um ar de superioridade.
– Se você não sabe qual é o limite como sabe que extrapolou?
– Senhor, por favor! Vamos para fora!
Tentei persuadi-la de uma forma simpática e educada, mas ela era inflexível e muito antipática. Quando percebi que não havia chance de diálogo, subi para ver as tais especificações de tamanho.
– Olha aqui – disse ela apontando para o painel do lado de fora da catraca.
Realmente, havia um tópico especificando como limite 150x60cm.
– Vamos fazer o seguinte, eu corto a placa e deixo com 150x100cm. Aí você me deixa entrar?
– Corta pra ver se você vai entrar – disse ela com muita grosseria.
– Não, me responde você. Se eu contar 50cm, você me deixa entrar?
– Corta pra ver se você vai entrar – ela repetiu.
– Mas se cortar e você não me deixar entrar eu terei cortado a toa!
– Corta pra ver se você vai entrar – novamente.
Aí eu perdi a paciência e conclui que com ela não haveria mesmo diálogo.
– Chama seu supervisor agora – falei elevando o tom de voz.
– Não posso chamar meu supervisor.
– Por que não? Você tem que chamar o seu supervisor!
Ela virou as costas e saiu andando. Um minuto depois vejo o supervisor vindo em minha direção. Ele tinha um semblante simpático e já chegou estendendo a mão e me cumprimentando. Conversamos numa boa por alguns minutos e logo chegamos a um consenso. Eu cortaria 50cm da placa e ele me deixaria exceder o limite lateral em 40cm. Ou seja, com uma conversa civilizada os dois lados cederam, e os dois lados saíram ganhando.
Ao descer novamente as escadas do metrô, me deparei com a funcionária. Ela visivelmente amargava uma derrota moral, afinal, eu estava entrando no metrô com um volume maior que o tolerável.
Nesse momento, ao passar por ela, respirei fundo e ia dizer: “É por isso que você é só uma funcionária e ele é o supervisor”.
Eu “ia” dizer, mas não consegui. Tudo que consegui dizer foi: “Desculpe se causei algum transtorno, é eu realmente preciso levar esta placa”.
Eu queria humilhá-la e cantar vitória, mas não consegui. Fiquei com pena. Ignorei o fato que ela não teve pena de mim, e resolvi poupá-la de meu comentário.
Escrito por eomemo às 21h05
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