DE NOVO NÃO
Almoço normal. Conseqüências trágicas... Movimentação estomacal constante e aquela sensação de insegurança.
Final da tarde, reunião de briefing aqui na produtora. Começa a chegar o pessoal da agência. Chega fulano, chega beltrano, e vem chegando todo mundo. Eu meio distraído ali no meio, ouço um "Ah, Olha quem chegou!", e eu olho.
Ela vem andando em câmera lenta. Morena, olho claro. A blusinha de alças estreitas revela um dragão azul tatuado no obro. Gata.
- Oi. Você é o Rodolfo?
- Ah... Bah... Sou!
- Eu sou a Stefania. A gente se fala sempre por telefone, né?
- Sim, é verdade!
Poucos minutos de conversa e começa a reunião. Meu estômago estava em plena atividade, não me deixando esquecer do perigo eminente.
Enfim a reunião acaba. Eu discretamente vou ao banheiro. Boto pra fora tudo de ruim que havia dentro de mim. A situação era grave, tive que dar a descarga duas vezes e mal via a hora de sair daquele ar "poluído".
Vou destrancando a porta e pensando "Coitado de quem entrar aqui na próxima meia hora...".
Abro a porta e adivinha quem está plantada do lado de fora com uma carinha "Opa! Eu sou a próxima!"? Stefania, lógico...
Eu fico imóvel entre ela e a porta com cara de "Hehehe, não entra não...". Mas foi inevitável, ela entrou.
Então eu fiz o que qualquer homem faria nessa situação! Peguei minhas coisas e fui embora. Já estava no meu horário mesmo, e dificilmente eu a veria de novo. Ainda mais depois dessa...
Conto esse fato, pois essa não é a primeira vez que me acontece isso. Oh sorte essa viu...
Escrito por eomemo às 11h26
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GIRASSOL, 293
Este texto é apenas uma tentativa de fazer com que você sinta o que eu senti, e imagine o que eu vi neste lugar. Você não precisa lê-lo, você pode ir lá e conferir pessoalmente.
Fachada discreta, deteriorada, com grades cerradas. Quase não se podia ver o que havia além do portão. A entrada era tomada por plantas que cresciam desordenadamente. Uma corda pendurada na altura do rosto presa a um sino era a campainha. Uma moça vem abrir a porta. Figura humilde, jovem, não olhava nos olhos, provavelmente uma criada.
Fui entrando. Além do portão, obviamente, havia uma garagem muito pequena, mal caberiam dois carros pequenos lado-a-lado. Eu ainda não sabia, mas garagem era única coisa previsível naquela casa. Mais à frente uma porta de madeira e, enfim, o interior da casa.
Estávamos no meio do dia e mesmo assim a sala era muito escura. Bagunça generalizada, móveis antigos, coisas espalhadas. Em meio a tudo isso algo se destacava muito. Realmente chamou atenção, pois destoava do restante: um piano.
Seguindo em frente, espanto-me novamente. A partir do piano a claridade aumentava, graças a uma pequena clara-bóia. Chegamos ao próximo cômodo.
Vislumbrado com a cozinha, nem reparei que a moça da entrada, que até então nos acompanhava, não estava mais conosco. Visivelmente havia alguém morando naquela casa. Garrafão d’água na metade, louças na pia, liquidificador, copos no armário e uma grande mesa de mármore branco ao centro. Até então, o ambiente mais agradável da casa. Com uma arquitetura desregular e assimétrica, porém muito charmosa. Nem grande nem pequena. A clara-bóia dava uma iluminação perfeita. Ao dar os primeiros passos para dentro da cozinha, ouço ao fundo um som de piano. Vou andando e me perguntando “quem será que está tocando?”.
Quando pensando em me voltar pra trás a fim de investigar o piano, não consegui. Avistei um jardim no fundo casa que me fez seguir em frente. Cadeiras de madeira, pedras no chão... aquele lugar já tinha sido muito belo, mas estava completamente abandonado. Talvez fosse justamente este abandono que o tornasse tão fascinante. Ao fundo deste jardim, em meio a todo o mato, duas escadas. Três degraus de madeira que desciam, e cinco degraus de cimento que subiam. Primeiro descemos.
A madeira em que pisávamos, embora estivesse podre, ainda suportava nossos passos. Após a escada não havia porta, entramos pelo vão chegando a uma espécie de ante-sala que era uma mistura de oficina, depósito, calabouço e marcenaria. A ala seguinte mais parecia um laboratório de alquimia abandonado há uns cinqüenta anos. Frascos de vidro escuro de todos os tamanhos tomavam as prateleiras. O pó sobre eles indicava que não eram manipulados há anos. Na parede oposta livros, muitos, que eu via como uma unidade só. Num misto de choque e fascínio fo
mos investigar a outra escada.
Subimos, passamos por uma porta aberta e chegamos a uma sala toda de madeira: piso, teto, paredes e móveis. Ambiente bem iluminado pela extensa janela na parede a nossa frente. Ao lado da janela uma porta levava a uma pequena sacada. Encostado à parede direita um pequeno móvel com um note book ligado e um sofá. Com uma decoração agradável, o lugar parecia ser a sala de estar da casa de um artista. Uma escada de madeira levava a um tipo de mezanino. Nele estava montado um quarto improvisado. Colchão no chão, roupas espalhadas pelo chão e uma pequena penteadeira. No teto estavam penduradas miniaturas de um Zepelim e de um Balão, obras artesanais feitas apenas de plástico transparente e barbantes.
(continua abaixo)
Escrito por eomemo às 15h02
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Voltamos todo o percurso observando tudo novamente, mas agora mais rapidamente. O som do piano ainda ecoava pela casa. Chegando à sala vimos a moça que nos abriu a porta sentada tocando. Ao nos perceber, parou e ficou nos olhando.
– Com licença, você está morando aqui?
Muito tímida, ela responde em voz baixa.
– Não, eu só venho aqui para praticar.
– O piano é seu?
– Sim.
– E para onde ele vai?
– Para a casa do meu pai, no interior.
– E você não vai mais poder praticar?
– Eu vou para o interior também.
– Há quanto tempo você toca?
– Dez anos.
Silêncio. Trocamos mais algumas breves palavras e por fim ela sugere:
– Vocês querem conhecer lá em cima?
Só então eu noto a estreita escada em “L” no canto da sala. Nós subimos, a moça voltou a tocar. À direita um quarto com uma cama de solteiro e uma janela para rua. Embora estivesse quase vazio, era o único cômodo arrumado da casa. À esquerda um banheiro e um hall. Começamos a ouvir vozes, parecia ser uma TV ligada. Seguindo pelo hall entramos no último cômodo ainda não explorado, a porta já estava aberta.
Duas mulheres sentadas numa cama de casal encostada num canto do quarto. As duas beiravam os trinta, as duas fumavam, as duas conversavam. A loira vestia um short e uma blusinha. Ao vê-la finalmente entendi o que Machado de Assis quis dizer com “olhos de ressaca”, mas ainda assim tinha algo de bela. A morena estava com um vestido longo lilás à la hippie. Assim que entramos, voltando seus olhares para nós parando de falar.
Não era um sonho, pois era detalhado demais. Não era um filme, pois não havia enquadramento. Não era uma peça de teatro, pois eu não era ator. Era apenas a realidade lúdica que eu havia presenciado.
Escrito por eomemo às 15h01
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